Existe uma cena que se repete com frequência nos Estados Unidos e que diz muito sobre como um povo se relaciona com sua própria história. Um presidente discursa e cita Abraham Lincoln. Um atleta vence e agradece a Muhammad Ali. Um jovem empreendedor fala de Thomas Edison como se o conhecesse pessoalmente. Os americanos não apenas lembram de seus grandes nomes. Eles os convocam. Os usam. Os transformam em combustível para o presente.
No Brasil, a gente enterra os nossos. Não literalmente, claro. A gente coloca o nome deles em rua, em escola pública, em aeroporto. Imprime o rosto em moeda, escreve o nome em livro didático que ninguém lê com atenção, celebra o aniversário de morte com nota de rodapé no noticiário. E acha que está quite. Que a homenagem foi feita. Que a dívida com a história foi paga. Mas não foi. Porque homenagem sem compreensão é decoração. E decoração não inspira ninguém.
O Brasil não mata seus heróis. Faz algo muito mais eficiente e muito mais cruel: os transforma em ornamento. Pega uma vida inteira de coragem, de pensamento, de sacrifício, e reduz tudo a uma data no calendário, um rosto numa cédula, um nome numa avenida que a maioria das pessoas não sabe pronunciar direito. E então se convence de que prestou a devida homenagem. Que a conta foi paga. Que o passado foi honrado. Mas o passado não foi honrado. Foi embalsamado. E cadáver embalsamado não inspira ninguém.
Pense em José Bonifácio de Andrada e Silva. Um dos intelectuais mais completos que este país já produziu. Cientista, geólogo, poeta, estadista. Foi ele quem articulou politicamente a Independência do Brasil, quem pensou de forma sistemática a construção de uma nação soberana, quem defendeu o fim da escravidão numa época em que essa posição era economicamente suicida para quem a sustentava. Pagou caro por isso. Foi exilado. Marginalizado. Morreu sem ver a maior parte de suas ideias realizadas. Hoje, seu nome aparece nos livros de história como uma data e uma função: o Patriarca da Independência. Ponto. Ninguém cita seu pensamento sobre desenvolvimento nacional. Ninguém retoma suas reflexões sobre soberania. Ninguém pergunta o que ele diria sobre o Brasil de hoje. Ele existe como estátua, não como ideia. E estátua não conversa com ninguém.
Pense em Dom Pedro I. Há uma tela famosa, pintada por Pedro Américo décadas depois do acontecimento, que mostra o momento às margens do Ipiranga com uma dramaticidade quase teatral. O Brasil se apaixonou pela tela e esqueceu o gesto. Esqueceu que romper com Portugal em 1822 era uma aposta arriscada feita por um homem que poderia muito bem ter escolhido o caminho mais seguro. Que a Independência não foi um evento inevitável que aconteceria de qualquer forma, mas uma decisão tomada por pessoas reais, com medo real, diante de consequências reais. O 7 de Setembro virou desfile com fanfarra e criança de roupa de época. A ideia por trás do gesto, a de que um povo tem o direito e a capacidade de decidir seu próprio destino, essa ideia ficou guardada junto com a fantasia no armário até o ano seguinte.
Mas se você quer entender como o Brasil desperdiça seus maiores, não precisa ir tão longe na história. Basta lembrar de Ayrton Senna.
Senna foi, sem espaço razoável para contestação, o maior piloto de corrida que o mundo produziu. Não é romantismo de torcedor. É o julgamento frio de quem analisa o que ele fazia dentro de um cockpit: vencia na chuva quando os outros desistiam, tirava de carros mediocres resultados que contrariavam a lógica da engenharia, operava num estado de concentração e de exigência consigo mesmo que beirava o incompreensível. Ele não era apenas rápido. Ele era uma filosofia de competição encarnada num macacão amarelo e verde.
Quando morreu em Ímola, no primeiro dia de maio de 1994, o Brasil parou de um jeito que não parava por nada. Três dias de luto nacional. Um silêncio pesado que quem viveu nunca esqueceu. E então, com o tempo, o país fez o que sempre faz: guardou Senna numa redoma de vidro chamada saudade, colocou a redoma numa prateleira bonita e voltou para a vida. Senna virou documentário, virou camiseta, virou aquela música que toca quando alguém quer provocar nostalgia num comercial. O que não virou foi referência viva. O que não virou foi a pergunta que deveria ser feita em toda escola, em todo vestiário, em toda empresa desse país: o que Senna faria diante desse obstáculo? Como ele pensava quando o problema parecia impossível? O que significa, na prática, a mentalidade de alguém que se recusa a aceitar o limite como definitivo? Essas perguntas não são feitas. E a ausência delas tem um custo que o Brasil nunca parou para calcular.
Silvio Santos é outro caso que o Brasil não soube ler. Aqui estava um homem que saiu de camelô em feira livre para construir um dos maiores impérios de comunicação da história do país, que leu o gosto popular com uma precisão que nenhuma pesquisa de mercado conseguia replicar, que se reinventou décadas seguidas sem perder a essência do que o tornava irresistível. Era um estudo vivo de empreendedorismo, de inteligência emocional, de resiliência. Mas o Brasil preferiu ficar com o personagem e deixou o gênio escapar nas entrelinhas. Quando ele morreu, em 2024, o país chorou o apresentador de auditório. Mal parou para pensar no construtor que havia por baixo da peruca e do microfone.
Há um padrão aqui que vale nomear: o Brasil é extraordinariamente bom em celebrar a superfície de seus grandes nomes e extraordinariamente ruim em minerar o que está embaixo. Celebramos o mito e descartamos o método. Choramos a ausência e ignoramos o ensinamento. Erguemos o monumento e deixamos a ideia morrer de tédio ao lado dele.
Nos Estados Unidos, isso funciona diferente, e vale entender por quê. Não é porque os americanos sejam mais inteligentes ou mais gratos. É porque construíram, deliberadamente, ao longo de gerações, uma cultura de uso da história. Lincoln não é citado em discursos presidenciais por acidente ou por protocolo. É citado porque existe uma tradição ensinada, repetida e cultivada de conectar o presente ao passado, de mostrar que as grandes ideias não têm prazo de validade, de usar os mortos como interlocutores dos vivos. Essa tradição não surgiu espontaneamente. Foi uma escolha. Uma política cultural consciente de um povo que decidiu que sua história seria instrumento e não decoração.
O Brasil nunca fez essa escolha. A escola brasileira ensina datas, não dilemas. Ensina quem estava onde no momento histórico, mas raramente ensina por quê aquela decisão foi difícil, o que estava em jogo, o que teria acontecido se a escolha fosse diferente. E sem entender a dificuldade da escolha, é impossível aprender com ela. Fica só a data. E data não alimenta ninguém.
O resultado é uma sociedade que não sabe de onde veio de verdade e, por isso, tem dificuldade de imaginar para onde pode ir. Que produz grandeza em série, em cada campo do conhecimento humano, da ciência à arte, do esporte à política, e depois trata essa grandeza como episódio isolado em vez de evidência de um padrão. Que admira seus heróis sem se perguntar o que eles têm em comum, sem extrair daí nenhuma lição sobre o que é possível quando alguém decide ir além do que parece razoável.
Os heróis do Brasil não estão mortos. Estão presos. Presos em datas cívicas que ninguém aguarda com expectativa, em biografias que ninguém lê fora da universidade, em homenagens que satisfazem a consciência sem alimentar a imaginação. E enquanto estiverem presos aí, vão continuar sendo inúteis para o único propósito que justifica lembrar de alguém: servir de prova de que a grandeza é possível, que já aconteceu aqui, neste chão, com gente deste povo, e que portanto pode acontecer de novo.
O Brasil tem heróis de sobra. O que nos falta é a coragem de levá-los a sério.
Esta é uma coluna de opinião. Os pontos de vista expressados são do autor e não refletem necessariamente a posição editorial do veículo.

