Um grupo de 14 cientistas publicou uma carta aberta alertando para um perigo iminente no Alasca. Uma encosta de montanha, instabilizada pelo recuo da geleira Barry, pode deslizar para dentro do fiorde de Barry Arm, a cerca de 96 quilômetros a leste de Anchorage, a maior cidade do estado. Segundo o estudo da Divisão Geológica e Geofísica do Alasca (DGGS), o impacto poderia gerar um tsunami com potencial catastrófico, um dos maiores já registrados na história moderna.

A análise, baseada em imagens de satélite, revelou que a encosta acima da geleira está se movendo lentamente, um fenômeno conhecido como "escoamento". Contudo, os pesquisadores alertam que essa movimentação pode acelerar subitamente, resultando em um deslizamento de terra de proporções gigantescas. Este evento liberaria um volume de rocha e detritos estimado em 500 milhões de metros cúbicos, equivalente a uma massa 160 vezes maior que a do deslizamento que causou a tragédia de Vajont, na Itália, em 1963, matando quase 2.000 pessoas.

As projeções indicam que um colapso dessa magnitude geraria uma onda inicial com centenas de metros de altura. Embora a energia da onda diminuísse ao se propagar pelo fiorde, ela ainda teria força suficiente para causar devastação significativa a quilômetros de distância. A área de Prince William Sound, um importante destino turístico e rota de navegação, seria uma das mais afetadas. Cidades como Whittier, com uma população de cerca de 200 habitantes, poderiam ser atingidas por ondas de até 9 metros de altura, capazes de inundar a zona portuária e áreas residenciais.

O fiorde de Barry Arm não é uma área densamente povoada, mas é frequentado por barcos comerciais, de pesca e de turismo, especialmente durante os meses de verão. Um tsunami repentino colocaria em risco imediato a vida de centenas de pessoas que possam estar na água ou nas margens do fiorde no momento do desastre. A carta dos cientistas destaca que o deslizamento pode ocorrer a qualquer momento, e eventos como terremotos, chuvas intensas ou períodos de calor extremo poderiam servir como gatilho para o colapso.

Este alerta não é um caso isolado. O recuo das geleiras, uma consequência direta do aquecimento global, está tornando as encostas de vales em todo o mundo mais instáveis. À medida que o gelo que antes servia de apoio para essas formações rochosas derrete, o risco de deslizamentos de terra aumenta. Em 2017, um evento semelhante no fiorde de Karrat, na Groenlândia, gerou um tsunami que devastou o vilarejo de Nuugaatsiaq, matando quatro pessoas e forçando a evacuação da comunidade.

No Alasca, o histórico também é preocupante. Em 1958, um terremoto de magnitude 7.8 na Baía de Lituya provocou um deslizamento de terra que gerou um "megatsunami" com uma onda recorde de 524 metros de altura, a mais alta já registrada. Embora a área fosse remota, a onda destruiu milhões de árvores e teve um impacto profundo na paisagem local.

Após a publicação da carta, as autoridades do Alasca instalaram equipamentos de monitoramento na encosta de Barry Arm para acompanhar a movimentação do solo em tempo real. O objetivo é criar um sistema de alerta precoce que possa avisar as comunidades e embarcações da região com antecedência, dando-lhes tempo para evacuar para terrenos mais altos. A tecnologia inclui sensores GPS, câmeras e estações meteorológicas, cujos dados são analisados constantemente para detectar qualquer aceleração no deslizamento. A conscientização pública e a preparação para desastres tornaram-se prioridade para as agências de emergência locais, que agora enfrentam a difícil tarefa de mitigar um risco natural de proporções alarmantes.