A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu, nesta sexta-feira (29), que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado pela ditadura militar em 1976. Por seis votos a favor e uma abstenção, o colegiado aprovou o relatório da relatora Maria Cecília Adão, que passa a ser a versão oficial sobre o caso, substituindo a tese de morte acidental em um acidente de carro.
Com a decisão, o registro de óbito de JK será alterado para incluir "morte responsável pelo Estado" como a causa oficial. O anúncio foi feito durante uma coletiva de imprensa no Ministério Público Federal, em São Paulo. Apesar do avanço no inquérito, a família do ex-presidente informou que não deseja prosseguir com as investigações.
O relatório, com mais de mil páginas, afirma que "Juscelino Kubitschek foi cassado e perseguido pela ditadura militar". O documento aponta que os militares da época viam o ex-presidente como um "inimigo" com altas chances de vencer a eleição presidencial de 1965. "Juscelino Kubitschek venceria as eleições: era necessário que o golpismo o removesse da frente", destaca um trecho do texto.
A investigação concluiu que houve fraude na perícia original, com alterações na cena da morte e nos laudos médicos. O relatório identificou um total de 37 fraudes processuais e apontou que JK sofreu diversas ameaças e tentativas de neutralização antes do ocorrido.
Entre as conclusões da apuração, estão a existência de ameaças de "acidentes", o impedimento de pouso de um avião em pane, uma tentativa de atropelamento no Leblon (RJ) e a execução de planos para eliminar adversários políticos, como o Plano Parasar e as operações "Condor" e "Código 12". O documento também menciona que o assassinato teria sido "avisado" por Armando Falcão e Roberto Marinho em fevereiro de 1976 e que a notícia "JK morto na Dutra" foi veiculada duas semanas antes do fato, concretizado em 22 de agosto daquele ano.
A nova conclusão da CEMDP contraria o parecer da Comissão Nacional da Verdade, que em 2014 defendeu a versão de acidente automobilístico. Na época do regime militar, Juscelino teve seus direitos políticos cassados por cerca de dez anos pelo governo de Castello Branco, sendo considerado um perseguido político.
Em comunicado, Anna Christina Kubitschek, neta do ex-presidente, afirmou que a hipótese de assassinato não pode ser ignorada. "A reabertura do debate sobre a morte de meu avô Juscelino representa um passo importante para a verdade histórica no Brasil", pontuou.









