Um novo estudo arqueológico revelou que os humanos pré-históricos já possuíam uma notável preocupação com conforto e higiene há cerca de 200 mil anos. Pesquisadores descobriram que hominídeos que viveram no sul da África mantinham uma rotina de queimar suas antigas camas de vegetação e construir novas sobre as cinzas.

A descoberta ocorreu na Caverna da Fronteira, um importante sítio arqueológico situado entre a África do Sul e Essuatíni. O local foi ocupado de forma contínua por um longo período, entre aproximadamente 220 mil e 43 mil anos atrás. A análise, publicada no Journal of Archaeological Science, identificou que as camas eram feitas principalmente com gramíneas da subfamília Panicoideae, que inclui plantas como milho e cana-de-açúcar.

O estudo, conduzido por Peter Morrissey e Dominic Stratford, da Universidade de Witwatersrand, analisou seis estruturas de leitos preservadas em diferentes camadas de sedimento. Algumas dessas estruturas datam de 161 mil anos, mas outras evidências no mesmo local apontam para a existência de camas com até 200 mil anos.

Um dos aspectos mais relevantes da pesquisa é a evidência de um ciclo contínuo de renovação. Os arqueólogos encontraram resíduos carbonizados sob as camadas mais recentes de vegetação, o que sugere que as camas eram queimadas de forma repetida e depois reconstruídas. Segundo os autores, essa prática parece ter sido deliberada e persistiu por dezenas de milhares de anos.

Os cientistas levantam a hipótese de que o uso das cinzas poderia ter múltiplas funções. Uma possibilidade é que servissem como um repelente natural de insetos. Outra teoria é que as cinzas atuassem como isolante térmico, ajudando a manter o solo da caverna mais seco e aquecido. Os pesquisadores ponderam, contudo, que ainda não é possível afirmar se as cinzas eram colocadas de propósito ou se as camas eram simplesmente montadas sobre restos de fogueiras.

A análise microscópica dos sedimentos também revelou mudanças nos padrões de ocupação da caverna. As camadas mais antigas indicam um uso mais intensivo do espaço, enquanto os estratos mais recentes, entre 60 mil e 43 mil anos atrás, sugerem ocupações mais curtas ou por grupos menores. Foram notadas ainda diferenças em relação a outros sítios, como a Caverna Sibhudu, onde os leitos eram feitos majoritariamente de juncos, o que pode indicar variações culturais ou ambientais.

Para os autores, o estudo reforça que os humanos da Idade da Pedra Média já demonstravam um alto grau de planejamento e organização doméstica, muito antes do surgimento da agricultura. Essa complexidade comportamental, observada a partir de 125 mil anos atrás, coincide com outras evoluções importantes, como o desenvolvimento de ferramentas compostas e o surgimento de práticas simbólicas.