O governo dos Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, classificou o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A decisão, anunciada na última quinta-feira (28), representa uma vitória política para o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e cria uma armadilha eleitoral para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A medida coloca Lula em uma posição delicada. Há cerca de 20 dias, o presidente brasileiro esteve com Trump nos Estados Unidos e apresentou argumentos contrários à classificação. Agora, a oposição pode usar qualquer contestação à medida para reforçar o discurso de que o petista "defende bandido". O Palácio do Planalto estuda com cautela a resposta oficial para evitar ser acusado de proteger as facções.
Flávio Bolsonaro capitalizou o anúncio imediatamente. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, ele afirmou que, em uma única visita à Casa Branca sem ser chefe de Estado, "fez mais pelo Brasil e pela segurança dos brasileiros do que o PT e o Lula em seus 17 anos de mandato". A articulação dá fôlego ao pré-candidato, que vinha sofrendo desgaste político devido ao caso "Dark Horse" e a uma negociação de R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para um filme sobre Jair Bolsonaro.
Embora a proposta de classificar as facções já estivesse em discussão no governo americano desde 2025, a concretização neste momento é associada à visita de Flávio aos EUA. Ele se reuniu com Trump, com o secretário de Estado, Marco Rubio, e com o vice-presidente, JD Vance, pedindo a sanção contra os grupos brasileiros. O anúncio feito por Rubio logo após o retorno de Flávio ao Brasil é visto como um movimento de reposicionamento do governo americano de olho na eleição brasileira.
O cálculo político do bolsonarismo é objetivo. Segundo uma pesquisa Genial/Quaest divulgada no dia 13 de maio, a violência é o tema que mais preocupa os eleitores, citada por 31% dos entrevistados. O tema da segurança pública é considerado um ponto fraco para a esquerda.
Nos últimos meses, o governo Lula acelerou a tramitação de projetos na área, como a Lei Antifacção e a PEC da Segurança Pública, para construir uma agenda positiva. Recentemente, Lula voltou a falar na recriação do Ministério da Segurança Pública, uma promessa de campanha de 2022. Durante um evento na Fiocruz, no Rio de Janeiro, ele condicionou a criação da pasta à aprovação da PEC pelo Senado, que depende do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Contudo, com a nova conjuntura, a criação do ministério pode ser percebida como uma resposta reativa e oportunista à articulação de Flávio Bolsonaro e à decisão de Trump, dificultando a tentativa do governo de convencer o eleitorado sobre a espontaneidade da medida.
A ofensiva, no entanto, pode ter um efeito reverso. O mercado financeiro analisará os possíveis impactos da nova política americana na economia brasileira. No campo político, a medida também pode se voltar contra a própria direita. O ex-presidente da Assembleia Legislativa Rodrigo Bacellar está preso sob suspeita de envolvimento com o Comando Vermelho, e a gestão de Cláudio Castro (PL) no Rio também é alvo de investigações da Polícia Federal por supostas relações de ex-secretários com o CV e loteamento de cargos para outra facção.









