A saúde da ativista iraniana Narges Mohammadi, vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2023, tornou-se motivo de alarme global. Presa no Irã, ela perdeu 19 quilos e enfrenta uma grave deterioração de seu estado, que sua família descreve como uma "morte em câmera lenta". A situação se agravou após ela sofrer um infarto e ter seu acesso a tratamento médico hospitalar negado pelas autoridades iranianas.

Mohammadi, de 52 anos, é uma das mais proeminentes defensoras dos direitos humanos no Irã, com uma longa história de ativismo contra o uso obrigatório do hijab e a pena de morte. Sua luta lhe rendeu múltiplas condenações que, somadas, ultrapassam 12 anos de prisão, além de outras penas como chicotadas e proibição de viajar. Atualmente, ela está detida na prisão de Evin, em Teerã, conhecida por abrigar presos políticos.

Segundo relatos de sua família, que vive no exílio em Paris, a ativista começou a sentir fortes dores no peito e falta de ar, sintomas consistentes com problemas cardíacos. Um ecocardiograma realizado dentro da prisão confirmou que ela havia sofrido um infarto. Médicos da própria unidade prisional emitiram um laudo de emergência, solicitando sua transferência imediata para um hospital especializado em cardiologia e pneumologia.

Apesar da urgência, as autoridades judiciais e prisionais negaram a transferência. A recusa em fornecer tratamento adequado é vista por ativistas e pela família como uma forma de tortura e uma tentativa deliberada de silenciá-la. Seu irmão, Hamidreza Mohammadi, afirmou que a condição dela é crítica, com obstruções em três artérias do coração e problemas pulmonares que se agravaram devido à negligência.

O governo do Irã, por sua vez, nega as acusações de maus-tratos. A representação do país na Organização das Nações Unidas (ONU) declarou que Mohammadi está sob cuidados médicos e que as alegações de tortura e negação de tratamento são "infundadas". As autoridades iranianas afirmam que ela tem acesso regular a exames e não apresenta problemas graves.

A trajetória de Narges Mohammadi é marcada por uma perseguição implacável. Engenheira de formação, ela dedicou sua vida à militância, tornando-se vice-presidente do Centro de Defensores dos Direitos Humanos, fundado por outra Nobel da Paz, Shirin Ebadi. Sua luta a transformou em um símbolo da resistência das mulheres iranianas contra o regime teocrático.

A concessão do Nobel da Paz em outubro de 2023 colocou os holofotes do mundo sobre sua situação. O comitê do Nobel justificou a escolha por sua "luta contra a opressão das mulheres no Irã e sua luta para promover os direitos humanos e a liberdade para todos". Na cerimônia de premiação em Oslo, na Noruega, seus filhos gêmeos, Ali e Kiana Rahmani, leram um discurso escrito por ela na prisão, no qual descrevia o regime iraniano como "tirânico e misógino".

A comunidade internacional tem reagido com preocupação. Organizações como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch têm feito apelos consistentes pela libertação de Mohammadi e pelo fim da perseguição a ativistas no Irã. Governos de países como França e Noruega também manifestaram sua apreensão e pediram que o Irã cumpra suas obrigações internacionais de direitos humanos, garantindo a saúde e a integridade de seus detentos.

O caso de Mohammadi ilustra a dura realidade enfrentada por dissidentes políticos no Irã, onde a repressão se intensificou após os protestos massivos de 2022, desencadeados pela morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moralidade. A coragem de mulheres como Narges Mohammadi, que continuam a desafiar o regime mesmo atrás das grades, inspira um movimento que clama por "Mulher, Vida, Liberdade", um lema que ecoa globalmente.