O Papa Francisco recebeu nesta quinta-feira (1) o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, para uma audiência de 45 minutos no Palácio Apostólico, no Vaticano. O encontro, que não estava inicialmente na agenda oficial de Pompeo, ocorre em um momento de fortes tensões entre a diplomacia dos Estados Unidos e a Santa Sé, principalmente por conta da iminente renovação de um acordo entre o Vaticano e a China sobre a nomeação de bispos.

A reunião, confirmada pelo diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, serviu para selar uma trégua e buscar pontos de convergência após semanas de atritos públicos. Pompeo, um fervoroso evangélico, tem liderado uma campanha internacional contra o que os EUA consideram ser uma excessiva aproximação do Vaticano com o governo chinês, governado pelo Partido Comunista.

A principal fonte de discórdia é um acordo provisório assinado em 2018, com validade de dois anos e que está prestes a ser renovado em outubro. Pelo texto, o Papa readmitiu oito bispos que haviam sido nomeados por Pequim sem a autorização de Roma, um gesto histórico que buscou unificar a Igreja Católica na China, dividida entre uma associação "oficial" controlada pelo Estado e uma igreja "subterrânea" leal ao Papa. Em troca, o governo chinês passou a reconhecer a autoridade do Papa como líder da Igreja Católica. Os detalhes do acordo, no entanto, permanecem secretos.

Para a administração de Donald Trump, o acordo representa uma concessão perigosa a um regime que viola sistematicamente a liberdade religiosa. Em um artigo publicado na revista conservadora First Things e em uma série de postagens em redes sociais nas últimas semanas, Pompeo instou o Vaticano a não renovar o pacto. Ele argumentou que a China intensificou a perseguição a cristãos e outras minorias religiosas desde a assinatura do documento, e que a "autoridade moral" da Santa Sé estaria em risco caso a cooperação fosse mantida.

O Vaticano, por sua vez, defende o acordo como um passo pragmático e necessário para garantir a sobrevivência da Igreja Católica no país mais populoso do mundo e para evitar um cisma. O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, e o arcebispo Paul Richard Gallagher, secretário para Relações com os Estados, defenderam publicamente a abordagem de "diálogo" com Pequim, contrastando com a postura de confronto de Washington.

Antes da audiência com o Papa, Pompeo já havia se encontrado com Parolin e Gallagher. Nessas reuniões, segundo o Departamento de Estado dos EUA, o secretário norte-americano reiterou a posição de seu país sobre a China e discutiu a promoção da liberdade religiosa globalmente, um ponto em que as duas partes costumam convergir. Ambos os lados classificaram a conversa como "respeitosa e construtiva".

Durante a audiência com Francisco, além da questão chinesa, outros temas da agenda internacional foram abordados. Fontes no Vaticano indicam que a conversa incluiu a situação de conflito em Belarus, as tensões no Líbano e a crise humanitária na Venezuela. A perseguição a cristãos no Oriente Médio e na África, uma preocupação constante tanto para o Papa quanto para o governo americano, também foi um ponto central do diálogo.

A relação entre o Papa Francisco e o governo Trump tem sido marcada por uma série de divergências públicas desde 2016. Os dois líderes já manifestaram visões opostas sobre temas como mudanças climáticas, imigração e a construção de um muro na fronteira entre EUA e México. A visita de Pompeo, portanto, era vista com grande expectativa. A realização do encontro foi interpretada por analistas como um esforço de ambos os lados para manter canais de comunicação abertos, apesar das profundas diferenças. A diplomacia do Vaticano, conhecida por sua discrição e foco em objetivos de longo prazo, historicamente busca manter o diálogo com todas as potências globais, independentemente de suas colorações políticas ou ideológicas. Para os EUA, a Santa Sé representa um ator influente na cena mundial, com capilaridade em mais de 1 bilhão de católicos e uma voz moral respeitada em muitos cantos do planeta.