O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou que vai classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida foi classificada como “muito grave” pelo promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (MP-SP), que atua no combate às facções desde 2005.
Em entrevista ao podcast O Assunto, Gakiya afirmou que a decisão pode gerar problemas para o Brasil. “Eu não tenho dúvida, vai causar problemas de toda ordem no Brasil e não vejo nenhum benefício prático que essa classificação possa trazer. Acho que há o risco muito grande dos Estados Unidos quererem fazer algum tipo de ação militar secreta aqui dentro do Brasil, como fez no México e como fez também na Venezuela”, declarou o promotor.
Segundo Gakiya, a nova classificação altera a natureza das investigações americanas. As apurações, que antes eram conduzidas por órgãos policiais como o FBI e o DEA (agência de combate ao narcotráfico), passarão a ser de responsabilidade da CIA e das forças militares dos EUA.
Essa mudança, na avaliação do promotor, tende a prejudicar a colaboração entre os dois países. “Quando passa a ser classificado e tratado pela CIA e pelos militares, há o sigilo dessas informações, que passam a ser classificadas como secretos e ultrassecretos ou confidenciais. Então, provavelmente nós vamos ter um decréscimo, um prejuízo na troca de informações”, explicou.
Outro ponto de preocupação levantado por Gakiya é o sistema financeiro brasileiro, que ficaria sob suspeita. Ele citou a Operação Carbono Oculto, que revelou um esquema de lavagem de dinheiro do PCC por meio de postos de combustíveis e contas em fintechs. Esses recursos, posteriormente, circulam em fundos de investimento e bancos regulares.
“Se a gente for levar ao pé da letra essa classificação de terrorismo, você poderia sancionar bancos que não tiveram diretamente nenhum contato com nenhum integrante do PCC ou mesmo nem participaram desse esquema, mas que indiretamente receberam recursos nessa cadeia”, concluiu Gakiya.
A decisão americana faz parte de uma nova estratégia de defesa do país. Nos bastidores, o governo Lula tentou impedir a medida, mas não foi notificado previamente sobre o anúncio.







