Quatro pessoas morreram e duas ficaram feridas após a queda de um avião de pequeno porte na manhã de 21 de outubro de 2019, uma segunda-feira, em Belo Horizonte. A aeronave, um monomotor Cirrus SR20 de matrícula PR-ETJ, caiu sobre carros em uma rua do bairro Caiçara, na região Noroeste da capital mineira, a cerca de um quilômetro da cabeceira da pista do Aeroporto Carlos Prates, de onde havia decolado minutos antes.
O acidente resultou na morte do piloto e de três pessoas que estavam em solo, atingidas pelos destroços e pelo incêndio que se seguiu à queda. Outras duas pessoas que passavam pela rua no momento do impacto sofreram ferimentos. A cena na Rua Minerva, local do acidente, foi de destruição, com veículos em chamas e uma densa fumaça preta que podia ser vista a quilômetros de distância, mobilizando dezenas de bombeiros e equipes de resgate.
A aeronave pertencia a um empresário de Varginha, no Sul de Minas, e voava com destino ao Espírito Santo. Segundo a investigação conduzida pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o piloto, que tinha 43 anos e era habilitado, comunicou à torre de controle uma falha no motor e a intenção de retornar ao aeroporto para um pouso de emergência.
O relatório final do Cenipa, concluído em 2021, apontou que o motor da aeronave sofreu uma perda de potência por motivo não determinado. Durante a tentativa de manobra para retornar à pista, o piloto não conseguiu manter a altitude e a velocidade necessárias, levando a um estol, que é a perda de sustentação da aeronave, e à consequente queda em uma área densamente povoada.
A tragédia no bairro Caiçara não foi um fato isolado e serviu para intensificar um debate que já durava décadas em Belo Horizonte. Moradores e autoridades locais há muito tempo questionavam a segurança das operações no Aeroporto Carlos Prates, um terminal voltado principalmente para a aviação executiva, escolas de voo e manutenção de helicópteros e aviões de pequeno porte.
Inaugurado em 1944, o aeroporto viu a cidade crescer ao seu redor, ficando totalmente cercado por bairros residenciais. A proximidade com casas, escolas e comércios gerava apreensão constante na comunidade. Relatos de outros incidentes, como quedas e pousos forçados nos arredores, eram frequentemente usados como argumento por quem defendia a desativação do terminal aéreo.
Estatísticas da Rede de Segurança Aérea (Aviation Safety Network) mostram que, embora a aviação geral seja segura, acidentes com aeronaves de pequeno porte em áreas urbanas representam um risco significativo. A discussão em Belo Horizonte espelhava debates semelhantes em outras cidades brasileiras, como São Paulo, com o Aeroporto Campo de Marte, onde a expansão urbana também pressiona as operações aéreas.
A repercussão do acidente de 2019 foi um fator decisivo para o futuro do Carlos Prates. A pressão popular e política aumentou consideravelmente, levando a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e o governo federal a reavaliarem a permanência do aeroporto. A prefeitura de Belo Horizonte manifestou interesse na área para a construção de moradias populares e equipamentos públicos.
Após anos de negociações e adiamentos, o Aeroporto Carlos Prates foi oficialmente desativado em 1º de abril de 2023. As operações foram encerradas, e o terreno de mais de 500 mil metros quadrados foi repassado pela União ao município. O fim do aeroporto foi celebrado pelos moradores do entorno como uma vitória da segurança e da qualidade de vida.
O acidente de 2019 permanece na memória como um doloroso lembrete dos riscos da convivência entre aeroportos e áreas urbanas adensadas. A queda do Cirrus SR20 não apenas ceifou quatro vidas, mas também selou o destino de um dos mais tradicionais terminais aéreos do país, transformando o debate sobre segurança em uma ação definitiva que mudou parte da paisagem urbana de Belo Horizonte.








