Uma surpreendente descoberta a mais de 6 bilhões de quilômetros da Terra está mudando o que os cientistas sabiam sobre a formação e manutenção de atmosferas. Astrônomos confirmaram a presença de bolsões de atmosfera em Quaoar, um planeta anão com cerca de 1.110 quilômetros de diâmetro, menos da metade do tamanho de Plutão. A detecção foi realizada com o poderoso Telescópio Espacial James Webb (JWST).
Localizado no Cinturão de Kuiper, uma vasta e gelada região além da órbita de Netuno, Quaoar apresenta temperaturas extremamente baixas, em torno de -220 graus Celsius. Nessas condições, a expectativa era que qualquer gás como o metano, que é volátil, congelasse e caísse sobre a superfície ou escapasse para o espaço devido à baixa gravidade do planeta anão. No entanto, os dados do James Webb mostraram o contrário.
As observações revelaram a presença inequívoca de metano e, pela primeira vez, de etano, ambos formando uma tênue atmosfera. O estudo, liderado por cientistas do Instituto de Astrofísica e Ciências Espaciais, em Portugal, aponta para um fenômeno conhecido como criovulcanismo. Trata-se de um tipo de vulcanismo gelado, no qual vulcões expelem compostos voláteis como água, amônia ou metano, em vez de rocha derretida, como acontece na Terra.
A teoria dos pesquisadores é que a atividade geológica no interior de Quaoar aquece o planeta o suficiente para liberar os gases aprisionados sob a crosta gelada. Esse processo, ocorrendo de forma esporádica em diferentes pontos da superfície, seria o responsável por reabastecer a atmosfera, que de outra forma já teria desaparecido completamente. A presença de etano, que se forma a partir do metano sob a influência da luz solar, reforça a ideia de uma reposição contínua.
Essa dinâmica atmosférica torna Quaoar um objeto de estudo fascinante. Ele se junta a um seleto grupo de corpos gelados no Sistema Solar exterior que exibem atividade geológica, como a lua de Netuno, Tritão, e o próprio Plutão. Contudo, Quaoar é significativamente menor, o que torna a existência de uma atmosfera e de criovulcanismo um quebra-cabeça ainda maior para os modelos planetários.
Descoberto em 2002, Quaoar leva 288 anos terrestres para completar uma volta ao redor do Sol. Sua superfície é composta principalmente por gelo de água e metano congelado. A nova descoberta, viabilizada pela sensibilidade do instrumento MIRI do James Webb, que opera no infravermelho médio, permite aos cientistas estudar a composição e a dinâmica de mundos distantes com um nível de detalhe sem precedentes.
A compreensão de como Quaoar consegue sustentar uma atmosfera, mesmo que tênue e localizada, pode fornecer pistas valiosas sobre a evolução inicial de corpos planetários em nosso próprio Sistema Solar e além. Os cientistas planejam continuar monitorando o planeta anão para observar possíveis mudanças em sua atmosfera, o que poderia confirmar de vez a atividade dos vulcões de gelo. A descoberta reforça a ideia de que mesmo os mundos mais frios e remotos podem ser geologicamente ativos e dinâmicos.









