Uma rotina que começa antes do sol nascer e só termina tarde da noite. Para muitos entregadores que trabalham por meio de aplicativos em São Paulo, a jornada diária envolve até 30 entregas de comida e mais de 100 pacotes de compras online. O resultado financeiro dessa maratona sobre duas rodas é um faturamento bruto que pode chegar a R$ 200 por dia, ou cerca de R$ 4 mil por mês para quem trabalha de segunda a sexta-feira.

Esses números, que à primeira vista parecem atraentes, escondem uma realidade de altos custos e grande desgaste. Do valor total faturado, os trabalhadores precisam descontar despesas essenciais para a atividade, como o combustível da motocicleta, a manutenção do veículo, o plano de dados do celular e a própria alimentação. No fim do mês, o lucro líquido pode ser consideravelmente menor, uma fatia que varia muito dependendo do modelo da moto e dos imprevistos.

Essa nova modalidade de trabalho, impulsionada pelo crescimento dos aplicativos de entrega como iFood, Rappi e Loggi, além de gigantes do e-commerce como Mercado Livre e Amazon, já faz parte da vida de mais de 1,5 milhão de brasileiros, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A maioria, jovens entre 25 e 39 anos, encontra na atividade uma fonte de renda imediata, mas sem as garantias de um emprego formal.

A dinâmica de trabalho é intensa. Pela manhã e início da tarde, o foco costuma ser a logística do comércio eletrônico. Os entregadores retiram lotes de pacotes em centros de distribuição, muitas vezes localizados em áreas mais afastadas, e percorrem bairros inteiros para finalizar as entregas. Já no final da tarde e durante a noite, a demanda migra para os restaurantes e lanchonetes, com o pico de pedidos de comida nos horários de almoço e jantar.

Em cidades como Barueri, a rotina ganha contornos específicos. A alta concentração de condomínios residenciais em bairros como Alphaville, Tamboré e Aldeia da Serra cria uma demanda constante tanto por comida quanto por pacotes. Para os entregadores, isso significa um fluxo contínuo de trabalho, mas também desafios logísticos, como a necessidade de passar por portarias rigorosas e percorrer longas distâncias dentro dos próprios condomínios, o que consome tempo e combustível.

A ausência de um vínculo empregatício formal é o ponto central do debate sobre a chamada “gig economy”, ou economia dos bicos. Os entregadores não têm direito a férias remuneradas, décimo terceiro salário, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) ou auxílio,doença em caso de acidente. O risco é uma constante, seja no trânsito caótico das grandes cidades, seja na exposição à violência urbana, como roubos de motocicletas e cargas.

Dados da Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike) mostram que, entre os entregadores que usam a bicicleta, o ganho médio é ainda menor, e os riscos de acidentes são igualmente presentes. A pesquisa traça um perfil onde a maioria trabalha todos os dias da semana, com jornadas que frequentemente ultrapassam 10 horas.

Enquanto a regulamentação da atividade é discutida em Brasília, com propostas que buscam criar um modelo de proteção social para esses trabalhadores sem enquadrá,los na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a categoria se organiza. Associações e sindicatos buscam pressionar as empresas por melhores taxas por corrida, seguros de vida e acidente mais abrangentes e mais transparência nos algoritmos que distribuem as entregas.

Para o consumidor final, a conveniência de receber um produto em poucas horas ou uma refeição quente na porta de casa é inegável. O crescimento exponencial desse mercado, que movimentou bilhões de reais nos últimos anos, se apoia diretamente na disponibilidade e na velocidade desses profissionais. A questão que permanece em aberto é sobre a sustentabilidade desse modelo e qual será o futuro para a legião de trabalhadores que, diariamente, aceleram para que tudo chegue a tempo.